27.10.09

Ofícios #4

E desculpe lá, que o pão com chouriço estava a saber bem, mas sim senhor, saiem já dois cartões plastificados. Ora bem, é Domingo, é mais caro, mas como são dois faço um desconto.
- Obrigada, caro senhor!

17.10.09

A Língua Toda



Dia 17:
Hoje, às 18h, «Identidade Portuguesa - reflexões a partir de Eça de Queirós e Eduardo Lourenço». No Binibag - conhecem o espaço?
Eu e a Profª Maria Manuel Baptista lá estaremos à vossa espera!
À noite, Alberto Pimenta, pelo olhar de Edgar Pêra (estreia nacional).

Dia 18:
O festival continua. Hoje, às 18h, Oficina de Leitura. por Elsa Ligeiro. no Mercado Negro. E às 19h, Heterofonia (Pessoas a várias vozes). com Joana Amaral Dias e Elsa Ligeiro. no mesmo lugar. Às 22h, Festa. Celebremos A Língua Toda!

Dia 19:
22h: «Antero, O Palácio da Ventura». Depois do filme, ficamos com o realizador José Medeiros. Conversa à volta de uns copos.

14.10.09

Avenida


A cidade morre e ressuscita. São as feridas que a tornam interessante. É o carácter excessivo do sonho, impregnação da vontade. Somos conquistados, figuras sem história, observadores de feitos. Um fragmento da obra "Avenida". Música e realização de Joaquim Pavão.
[Já tinha falado
aqui deste projecto]

27.6.09

Projecto "Avenida"

Hoje, dia 27 Junho, pelas 21:30, poderemos assistir no Mercado Negro à primeira apresentação do projecto "Avenida".
Este projecto insere-se no conjunto de actividades que o movimento cívico
Amigos d'Avenida tem vindo a apoiar e a dinamizar e consta de um documentário sobre a Avenida Lourenço Peixinho (e respectiva banda sonora) realizado pelo músico e compositor Joaquim Pavão e produzido por Tânia Oliveira da Senso Comum.

Este projecto resulta de um trabalho de pesquisa e recolha de dados e materiais que a equipa de investigação, produção e realização tem estado a desenvolver sobre o espólio fotográfico e documental da Avenida e procura reflectir sobre três momentos distintos do seu desenvolvimento: o passado, o presente e o seu futuro.

O projecto não está ainda concluído, pelo que se pretende com esta primeira sessão fazer uma breve apresentação do projecto e recolher eventuais testemunhos (orais ou documentais) ou sugestões sobre o documentário "Avenida".

O programa da sessão será o seguinte:

Os amigos da Avenida - Gil Moreira (e outros amigos)
O projecto Avenida - Tânia Oliveira /Senso Comum
A História da Avenida - Rosa Oliveira
Concerto - Joaquim Pavão (realizador e compositor)

Avenida
I - Passado
II - Presente
III - Futuro
Sobre Paredes - II andamento ""Verdes Anos"
Medeia - III Andamento - Jasão
Ignorâncias I
(re)Volta e Meia
A Sesta


Convidam-se todos os aveirenses a participar na apresentação e discussão do projecto 'Avenida'.

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A “fantástica história” da avenida passa a documentário - Diário de Aveiro, 27-06-09

Joaquim Pavão realiza documentário sobre a principal artéria de Aveiro. Obra pode entrar no circuito comercial e dar origem a um DVD

“Era preciso mostrar a fantástica história de uma avenida que não é nada de mais quando comparada com tantas outras, mas é o produto da vontade férrea de um homem (dr. Lourenço Peixinho), de uma sociedade, da cidade onde escolhi habitar”. Desta forma, explica Joaquim Pavão, o realizador, nasceu “Avenida”, um documentário sobre a principal rua de Aveiro, que é hoje apresentado pela primeira vez (Mercado Negro, 21.30 horas).
O projecto insere-se no conjunto de actividades que o movimento cívico Amigos d'Avenida tem vindo a organizar em prol da dinamização daquela artéria.
O filme foi inicialmente cogitado como uma pequena peça. “Passada uma semana após a primeira reunião pública dos Amigos d'Avenida, retirei da gaveta quatro folhas de rascunho de uma futura obra para guitarra sobre Aveiro e surgiu o primeiro esboço de uma curta-metragem”, clarifica Joaquim Pavão.
Mas o projecto rapidamente evoluiu para um documentário (já vai em 60 minutos e ainda está inacabado), após uma pesquisa sobre a “história” da avenida e as “estórias” da sua gente. “Avenida” procura “recriar fielmente” o passado desta artéria com o auxílio de actores e do Grupo Cénico e Etnográfico das Barrocas, esclarece o cineasta.
“O que achei curioso é que ao olhar para a Aveiro em 1918 encontro uma grave crise económica, um período entre guerras, uma República pueril e turbulenta, emigração em busca de uma vida melhor e um poder local sem margens financeiras para agir”, diz. Lourenço Peixinho, porém, “ousou e apenas trabalhou em soluções sem parar nos problemas”. Por isso “tornou-se imprescindível prestar-lhe homenagem”.
As dificuldades em financiar a obra não têm travado o seu avanço. “Não posso deixar de fazer um paralelismo entre este projecto e a história da vontade do próprio Dr. Lourenço Peixinho, que apesar das diversas contrariedades económicas e sociais persistiu”, realça Joaquim Pavão. “Acredito nas estórias que descobri, do poder de um colectivo. Gostaria que este documentário fosse de todos, uma partilha do mesmo espaço de reflexão e empenho, uma acção conjunta”, acrescenta.
O documentário é “ambicioso a nível técnico e artístico” e comporta custos elevados. “Até ao momento não foi a falta de apoio financeiro que o deteve. No entanto, não posso deixar de reconhecer a importância que o financiamento tem para a continuidade de projectos como este”, refere, salientando que “Avenida” já foi submetido a “diversas linhas de apoio”.
Para já, e depois da apresentação, hoje, de alguns trechos do filme e da sua banda sonora (composta propositadamente, também por Joaquim Pavão), será criado um sítio na Internet com informação sobre o projecto, vídeos inéditos e fóruns de discussão.
Mais para o fim do ano está prevista a participação do documentário em festivais nacionais e internacionais e a sua entrada no circuito comercial em salas portuguesas. Para mais tarde está previsto o lançamento de um DVD.

Rui Cunha

Batalha das Flores em Aveiro



No dia 18 de Junho a Ria encheu-se de flores. Na origem: uma batalha de flores entre ceboleiros e cagaréus. Prometo descrever com mais pormenor esse evento. Por hoje, fica apenas a moral da história: a Ria não separa, une. as gentes!

MANIFESTO POR UMA POLÍTICA DE ANIMAÇÃO E QUALIFICAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO


Os “Amigos d’Avenida”, um grupo de cidadãos abaixo assinados, porque se preocupam com o futuro da sua cidade, vêm por esta forma convidar todas as pessoas e instituições a participar e desenvolver reflexões e iniciativas que contribuam para o estabelecimento de uma “política de animação e qualificação do espaço público”. Apresentam, por isso, dez princípios de intervenção:

1. Trazer as pessoas para a rua. Fomentar uma utilização regular dos espaços públicos pelos aveirenses, dando-lhes a conhecer a sua cidade e promovendo a sua participação activa nas actividades de animação do espaço público.

2. Promover a apropriação do espaço público. Promover um sentimento de identificação com a cidade e de pertença a uma comunidade alargada, através do fomento da utilização dos espaços pela população e instituições sociais e culturais.

3. Incrementar a interacção social. Criar as condições para que os espaços públicos se assumam como espaços de comunicação, convívio e troca de experiências entre pessoas de diversos contextos socioeconómicos, culturais e, também, geracionais.

4. Assegurar a diversidade de actividades artísticas e culturais no espaço público. Promover actividades dirigidas para diferentes públicos e áreas de interesse, contribuindo para o prazer de todos os que nelas participam e demais utentes, garantindo a manutenção de funções quotidianas dos espaços e a diversidade de utilizações e utilizadores.

5. Criar momentos de experimentação. Promover actividades que propiciem a experimentação de novas formas de utilização e apropriação dos espaços públicos a partir dos recursos existentes.

6. Valorizar a memória da cidade. Divulgar a(s) História(s) da cidade e da região, promovendo actividades de recuperação de espólios, de organização de arquivos, de investigação científica e de criação artística potenciando a sua valorização em actividades de animação do espaço público, contribuindo para a consolidação de uma memória e identidade colectivas.

7. Incutir um sentido de responsabilidade social na animação do espaço público. Veicular que os espaços públicos são uma responsabilidade de todos e que, no caso da sua animação, os agentes culturais devem entender a sua participação também como uma actividade de responsabilidade social.

8. Aproveitar o espaço público como veículo de divulgação e promoção da actividade artística, cultural e de divulgação científica. Utilizar o espaço público para divulgar a qualidade e diversidade de recursos artísticos, culturais e científicos da cidade, tirando partido das novas tecnologias.

9. Garantir um espaço público inclusivo e com adequado equipamento urbano. Assegurar a existência e utilização adequada de recursos para criar e manter espaços públicos inclusivos, sem restrições de acesso a todos os cidadãos, confortáveis, limpos e com as infra-estruturas adequadas (tecnologias, mobiliário urbano, pavimentos) que privilegiem a sua utilização pelos cidadãos.

10. Assegurar a ligação dos espaços públicos ‘em rede’. Assegurar a continuidade, conectividade e complementaridade dos espaços, em termos do seu desenho e dos usos e actividades que albergam.


AMIGOS D’AVENIDA, AVEIRO
http://amigosdavenida.blogs.sapo.pt/


Subscreva o Manifesto enviando um
email para:
amigosdavenida@gmail.com os seguintes dados: nome, profissão, localidade e email (facultativo)


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Actual lista de subscritores do MANIFESTO


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contributo #1 - A Avenida e a área pertinente de estudo
contributo #2 - Problemas e potencialidades da Avenida

mais informação no blogue Amigos da Avenida

19.6.09

Carlos Candal (1938-2009)


Morreu Carlos Candal. Nas eleições legislativas de 1995, foi cabeça de lista do PS por Aveiro. Foi por essa altura que escreveu o célebre «Breve Manifesto Anti-Portas em Português Suave» onde se assume como «Republicano convicto, socialista humanista e democrata sem transigências». O Manifesto provocou enorme celeuma. Fundamenta as carreiras políticas em Portugal na «solidariedade corporativa» entre membros da Maçonaria, confrades da Opus Dei, agentes dos grupos económicos e «parceiros da comunidade gay». O estilo tem um quê de I República. É um texto digno das Farpas. Intolerante para alguns, simplesmente frontal para outros, a verdade é que essa peça política nunca mais foi esquecida. Lembro-me de pensar, quando vim viver para Aveiro, que esta era a terra de Carlos Candal. Acabei por me cruzar com a figura várias vezes. Mais do que arrogância, emanava carisma na política. Mas pareceu-me ser um homem afectuoso em termos pessoais. O seu desaparecimento deixou consternados os aveirenses de todos os quadrantes políticos.

Foi um dos fundadores do Partido Socialista. Foi um dos organizadores dos últimos
congressos da Oposição Democrática. Deixo aqui, vindo do passado, um documento que já vive no futuro do futuro.


BREVE MANIFESTO ANTI-PORTAS EM PORTUGUÊS SUAVE
«Real Senhor ía passando… Encostado à bananeira, diz o preto para preta: está bonita a brincadeira.”

1.- Estava eu ‘posto em sossego’ – aprestando o barquito da família para umas passeatas na Ria -, quando soube que vinham albergar em Aveiro nada menos que 2-intelectuais-2 de Lisboa, apostados em trocar a missanga de meia-dúzia de refervidas ideias por um açafate cheio do marfim eleitoral deste Distrito.
De pronto apostado em estragar-lhes o negócio, ainda ponderei então a conveniência de dar um salto algarvio à Praia dos Tomates – para um tonificante estágio ‘à la minuta’, junto da elite bem-pensante e vegetariana da Capital em férias.
Todavia, depressa desisti desse passeio para o sul – confiado em que a singela funda-de-David, que sempre me acompanha, bastaria para atingir e abater essas aves de arribação.
Não é que não goste de pássaros. Gosto. Mas detesto os cucos políticos – que usurpam e se instalam com à-vontade nos ninhos feitos por outros companheiros (ía a escrever ‘camaradas’ – expressão regional caída em desuso, mas recuperável).

2.- Deixando os eufemismos, a verdade é que venho lutando desde há muitos anos (frustradamente embora) contra o latrocínio institucional de que a região de Aveiro vem sendo vítima: designadamente, tiraram-nos o Centro Tecnológico da Cerâmica; o Centro de Desportos Náuticos foi também para Coimbra; o discreto porto da Figueira da Foz vem sendo privilegiado em relação ao porto-de-mar de Aveiro; a nossa Universidade só começou a receber dotações decentes depois de saturada a Universidade do Minho; as questões da bacia do Vouga são tratadas na Hidráulica do Mondego; a Direcção dos Serviços da Segurança Social de Aveiro foi transferida para Coimbra; os nossos Serviços de Saúde foram degradados para ’sub-regionais’; a Agricultura do Distrito passou a ser dirigida pela Lusa Atenas e por Braga (!); e a supervisão da Educação na região foi repartida entre o Porto e a dita Coimbra.

3.- Só nos faltava agora mais essa: sermos doravante representados no Parlamento por dois intelectuais da Capital!
Era o cúmulo passarem os Deputados por Aveiro a ser gente de fora – ‘estrangeiros’ para aqui impontados por Lisboa, como ‘comissários políticos para zona subdesenvolvida’ ou ‘tutores de indígenas carecidos de enquadramento’.
Tinha que reagir – e reagi !

4.- Na verdade, o Distrito de Aveiro sempre foi terra de franco acolhimento para quem vem de fora – para aqui trabalhar e viver, valorizando a região (que se torna também sua). Aliás, é esse um dos segredos do nosso crescimento e desenvolvimento. É esta uma das características da nossa identidade: somos gente aberta e hospitaleira, tolerante e liberal, civilizada, moderna, culta e progressiva; todavia – até por isso – nunca tolerámos que nos impontassem mentores!

5.- Disposto a barrar a promoção (à nossa custa) a tais intrusos, procurei apurar quem realmente sejam.

6.- Quanto ao Dr. Pacheco Pereira, foi-me fácil saber que, antes e depois do ‘25 de Abril’, foi comunista radical – daqueles que (aos gritos de “nem mais um soldado para as colónias”) impediram designadamente que Portugal pudesse ter evitado a guerra civil em Timor (e a subsequente invasão indonésia – com os dramas e horrores tão sobejamente conhecidos).
Com sólida formação marxista-leninista, o Dr. Pacheco Pereira tem vários livros publicados sobre o movimento operário e os conflitos sociais em Portugal no início do século.
Constou-me ter agora no prelo um longo escrito sobre as motivações íntimas que o terão levado a renegar o comunismo – opção ideológica que (a manter-se) não lhe teria permitido ‘fazer carreira’ no PSD, como é evidente…
Todavia, segundo notícias de certo semanário, o Dr. Pacheco Pereira recusa o jogo de equipa que a social-democracia pressupõe: ditadorzinho, não quer na campanha eleitoral em curso a companhia do Dr. Gilberto Madail – que limita às vulgares tarefas de motorista: guiá-lo pelo Distrito (que mal conhece). Realmente, o Dr. Pacheco Pereira ainda carece de alguma reciclagem democrática…

7.- Quanto ao Dr. Portas, esfalfei-me a correr bibliotecas e alfarrabistas – à procura dos livros que tivesse dado à luz, donde pudesse inferir qual seja afinal a corrente de pensamento que o norteia. Baldadamente. De facto, o Dr. Paulo Portas apenas publicou um ‘folheto de cordel’ (que me custou 750$00) sobre os malefícios da integração do nosso país na Comunidade Europeia – opúsculo sem qualquer novidade em relação aos numerosos bilhetes-postais que vem subscrevendo no seu jornal (sem erros ortográficos, mas com pouco fôlego – valha a verdade).
Digamos que tais escritos estão para o ‘ensaio’ como as quadras populares para o ‘poema’ – na forma e no conteúdo.
Trata-se de breves crónicas fúteis (embora não tanto como as do MEC, que aliás lhe leva a palma no sentido de humor e imaginação). Espremidas – pingam apenas cinco ou seis ideias, que não chegam sequer para conformar o anarco-conservadorismo (?) que se arroga ser a sua actual matriz ideológica.

8.- Certo é porém ter sido com essas ‘quadras soltas’ que o Dr. Portas concorreu aos jogos florais da política recente – ganhando (por ‘menção honrosa’) a viagem turística ao círculo eleitoral de Aveiro, que o Partido Popular oferecia como prémio para o melhor trabalho apresentado por amadores sobre o tema do ‘antieuropeísmo primário’.
Tenho-me esforçado por lhe estragar tal passeio – com algum êxito.

9.- Julgavam o Dr. Portas e o enfadado Pacheco Pereira (outro excurcionista) que as respectivas candidaturas a deputado por Aveiro eram ‘favas contadas’. Não nos conhecendo, supunham que os aveirenses (’provincianos’ como nos chamam) ficaríamos enlevados e até agradecidos pela sorte (grande) de passarmos a ser representados no Parlamento por ‘lisboetas de tão alto gabarito’ (a expressão não é minha, evidentemente).
Terão assim ficado surpreendidos pelo ‘impedimento’ que – logo após a 1ª anunciação – eu próprio (parente muito chegado da noiva) entendi opôr firmemente ao casamento-de-conveniência que pretendiam contraír com a minha querida região de Aveiro (num escandaloso golpe-de-baú eleitoral – para usar linguagem de telenovela).
Como consequência imediata, eles – que tencionavam ‘casar por procuração’ (que é como quem diz sem-sequer-cá-pôr-os-pés) – tiveram que se dar ao incómodo inesperado de interromper as regaladas férias que gozavam e vir mesmo mostrar-nos os seus dotes.
Estraguei-lhes o arranjinho!

10.- O primeiro a comparecer foi o Dr. Portas.
Chegou de fato novo e ideias velhas.
E instalou-se num hotel da região – escolhido pela mãezinha (no Guia Michelin).
Desde então, quase não tem feito outra coisa senão passar a ‘cassete’ – que gravou contra a participação de Portugal na Comunidade Europeia.
Tão desenvolto como qualquer vendedor de banha-da-cobra, impinge a quem se acerca as suas críticas à integração (aliás com a mesma monotonia com que o Marco Paulo repete ter dois amores).
E confunde deliberadamente os erros crassos cometidos pelo cavaquismo (nas negociações internacionais e no desenvolvimento interno das políticas sectoriais da integração) com a própria integração – o que constitui uma desonestidade intelectual inaceitável.
Pior é quando reclama que seja submetida a referendo a nossa entrada na União Europeia – depois de já termos entrado (e… recebido os milhões e milhões que essa opção facultou aos incompetentes governos do PSD) ! Aliás, o Portas não explica sequer que mirífica alternativa à comparticipação na CE teríamos podido escolher.

11.- Confrontado com questões políticas mais comezinhas (como a regionalização e o tratamento dos resíduos tóxicos), não tem opinião própria ou não sabe para que lado lhe convém cair – e refugia-se então na evasiva: reclama um plebiscito ‘adequado’.

12.- Fundamentalista e vaidoso, o Dr. Portas parece estar convencido de que não existe mais nenhum português inteligente e verdadeiramente patriota – além dele e do Dr. Manuel Monteiro.
Aliás, o Portas tem o nosso povo em fraquíssima conta…
Não obstante, messias da restauração, reclama ‘missionários’ (sic) para o seu ridículo sebastianismo – sem revelar de que Alcácer Quibir pretende afinal a reconquista.

13.- Inseguro, o jovem Portas sublima os seus problemas existenciais numa catarse de legitimidade duvidosa: exacerba as opiniões políticas que defende a um grau de intolerância que excede manifestamente o radicalismo aceitável de quem se move apenas por convicções arreigadas – tornando-se injusto, maledicente e agressivo.
Aliás, o frenesim que reveste a sua militância é bem um indício dessa terapêutica (praticada que foi, também, por ‘chefes’ cujos nomes a História registou – mal comparando…).

14.- Políticamente, o Portas é um ‘bluff’ – produto acabado de certos meios intelectualóides da Capital, que funcionam em circuito fechado: por convites mútuos, elogios recíprocos e esquemas de sobrevivência imediata.
Entre muitos outros, fazem parte de tal ‘entourage’ o avinagrado Vasco Pulido Valente (’avinagrado’ de vinagre – entenda-se) e sua piedosa esposa, D. Constança Cunha e Sá – ambos comungando os chorudos ordenados que “O Independente” (assim chamado) do Dr. Portas lhes paga, pelas crónicas de mal-dizer que semanalmente ali escrevinham, no cómodo formato A4.
Também o inefável Miguel Esteves Cardoso colabora no endeusamento do Portas, rebuscando a favor do patrão os trocadilhos que lhe deram notoriedade há mais de 20 anos – aquando era uma espécie de menino-prodígio da escrita fútil.
Pena que tenha deixado de ser prodígio e se mantenha menino; pena que desperdice agora o seu inegável talento juvenil a produzir romances pornográficos – ainda que muito apreciados pelas pegas e pederastas do Intendente e pelo crítico Henrique Monteiro, que os reputa (o termo é adequado) como peças exemplares da literatura moderna.

15.- O Portas é elitista. Mas simula demagogicamente interessar-se pelos problemas daqueles a quem, no seu milieu, é uso chamar ‘as classes baixas’ – como aconteceu recentemente na Bairrada, quando fingiu participar na vindima que gente simples e autêntica da terra levava a cabo (por castigo andando agora, há já várias noites, a pôr ‘creme nívea’ na sua mãozinha mimosa, nunca antes maltratada por qualquer alfaia agrícola).

16.- O Portas é dissimulado: esconde da opinião pública parte da sua verdadeira identidade.
Concretamente, oculta que é monárquico – opção que, sendo embora legítima, tinha obrigação de revelar àqueles a quem pede o voto para deputado da República !
É a tal ‘falta de transparência política’ que critica – nos outros, claro…

17.- O Portas é um democrata precário: por falta de formação ou informação, por carência de convicções ou por incoerência, rejeita a aplicabilidade universal da regra ‘”um homem-um voto” – verdadeiro axioma da Democracia essencial.
Assim sendo, não me admiraria nada que o Dr. Portas resvalasse a curto prazo para a defesa de soluções autoritárias para a governação dos portugueses, que (no seu entender) revelam “uma estranha tendência para o precipício”.

18.- Eleitoralmente, o Portas é desleal: vicia as regras do jogo. Na verdade, tendo-se feito substituir formalmente na direcção d’ “O Independente” (assim chamado), usa agora tal semanário como jornal-de-campanha privativo, aí publicitando escandalosamente os seus palpites e auto-elogios e atacando e denegrindo os adversários – com a cumplicidade na batota do respectivo ‘conselho editoral’ !
Porque não sou ‘queixinhas’, não vou lamentar-me nem reclamar contra tão anómalo procedimento – junto da comissão-de-ética do Sindicato dos Jornalistas, junto da Alta Autoridade para a Comunicação Social ou mesmo junto da Comissão Nacional de Eleições.
Não vou sequer queixar-me à mãezinha do Dr. Paulo Portas. Tão-pouco protestarei junto do Dr. Nobre Guedes – tido por ‘dono do jornal’ -, até porque sei que anda absorvidíssimo por visitas diárias a feiras e mercados e pelas demais tarefas da sua própria ‘candidatura a sanguessuga’ (também pelo PP), sem que lhe reste tempo para se preocupar com subtilezas e ninharias éticas.
Aliás, provavelmente não será especialista em ‘deontologia profissional do jornalismo’.
Assim sendo, remeto a apreciação da chocante conduta do Dr. Portas e d’ “O Independente” para a opinião pública e para os jornalistas Daniel Reis, Cáceres Monteiro, César Principe e José Carlos de Vasconcelos – tidos por profissionais honestos, competentes e livres (aliás como muitos outros). Concretamente, permito-me perguntar-lhes se acham que o comportamento daquele semanário e do Dr. Portas (que usa fazer a apologia dos valores morais sociais) seja éticamente aceitável.

19.- De facto, não é fácil ser-se coerente e sério em política !

20.- Particularmente difícil é porém ‘fazer carreira política’ em Portugal – sobretudo quando não se dispõe do apoio de qualquer dos ‘lobbies’ que condicionam quase toda a nossa actual vida pública. Estou a referir-me à ’solidariedade corporativa’ na promoção individual de que beneficiam os membros da Maçonaria, os confrades da Opus Dei, os agentes dos grupos económicos e – mais recentemente – os parceiros da comunidade ‘gay’. Trata-se de organizações ou agregados que mantêm intervenção (directa ou indirecta) praticamente em todas as estruturas da nossa vida colectiva – também nos partidos políticos e na comunicação social.
Agindo concertada ou avulsamente,os membros de tais ‘lobbies’ têm grande influência sobre muitas tomadas de posição de quem-de-direito e sobre a formação da opinião pública.
Podem designadamente ajudar ao aparecimento de pretensos génios artísticos, ‘heróis sociais’ ou ídolos-de-pés-de-barro (como são muitos dos políticos de sucesso).

21.- Por definição, as interferências do género são discretas ou mesmo subliminares – e passam geralmente desapercebidas aos cidadãos influenciáveis.
Na verdade, quem é que, de manhã, ao acompanhar a torrada e o galão do dejejum com a leitura do ‘Público’, pondera que esse jornal tem dono – e que o editorialista Vicente Jorge Silva é capataz dos respectivos interesses (mesmo quando – agora instalado – escreve considerações que fazem lembrar os tempos remotos e diferentes em que foi considerado pelos situacionistas de então como um jovem rasca da ‘geração de 60′) ?
E quem perceberá que está a ser condicionado na formação da sua opinião, quando escuta na rádio uma análise ou critica – injustamente lisonjeira – da acção de um diplomata, do trabalho de um artista ou da capacidade de um político homossexual proferida por outro homossexual, se não souber que tal apreciação reporta afinal a solidariedade de pessoas da mesma minoria ?

22.- A acção de todos ou alguns desses ‘lobbies’ perpassa de facto os principais partidos – transversalmente.
E, por vezes, é no espírito-de-corpo ou jogo de conveniências dos respectivos protagonistas que se encontra explicação para surpreendentes convívios gastronómicos no ‘Gambrinus’ ou na província e para inesperados apoios ou solidariedades espúrias ocasionalmente detectáveis nos mais variados campos da nossa vida colectiva.

23.- Republicano convicto, socialista humanista e democrata sem transigências, tenho feito o meu discreto percurso de político-não-profissional apenas com a ajuda dos activistas locais do PS e o firme apoio da gente bairrista da região de Aveiro – sem compromissos em relação a qualquer daquelas estruturas ou ‘forças de pressão’. Livre e independente como sempre, enfrento a presente conjuntura eleitoral com justificada confiança.
Estrêla de 3ª grandeza nos céus confinados do meu Distrito, nada me ofusca o brilho fugaz do citado Dr. Portas – cometa ocasional, que desaparecerá deste firmamento tão depressa como apareceu (e… sem deixar rasto).
Tão-pouco me perturba a dimensão aparente do Dr. Pacheco Pereira – lua nova doutras galáxias, que (perdido o fulgor militante que o marxismo-leninismo lhe emprestava) agora só é visível quando reflecte a claridade frouxa dessa extensa nebulosa que se chama PSD.

24.- Na minha terra, sou mais forte do que eles !

25.- Na noite do próximo dia 1 de Outubro, espero poder pendurar no meu cinto de caça política as tais duas aves de arribação – espécies exóticas lisboetas pouco apreciadas na região cinegética de Aveiro: um garnisé-cantante e um pavão-de-monco-caído.
Esses troféus servirão de espantalho a futuras transmigrações para esta ‘zona demarcada entre o Douro e o Buçaco’!»

Carlos Candal

16.6.09

Casa do Avô de Eça de Queiroz em Verdemilho

Curiosamente, a citação com que Marques Gomes inicia a obra Aveiro Berço da Liberdade - O Coronel Jeronymo de Moraes Sarmento, é também escolhida por Joaquim de Mello Freitas no seu texto «Casa do Avô de Eça de queiroz em Verdemilho» (incluido em Eça de Queiroz, Dicionário de Milagres e outros escritos dispersos, Lello & Irmão - Editores Porto, edição de 1980 conforme a edição de 1900):

Entretanto foi na cidade de Aveiro que se ouviu o primeiro grito da restauração da Pátria.
Soriano, Vida de Sá da Bandeira, t. I, pág. 141


Ao que segue o seguinte (primeiro) parágrafo:

"As ruínas que hoje aparecem em estampa são destroços de grande prédio construído no lugar de Verdemilho, à volta de 1835, pelo desembargador Joaquim José de Queiroz, avô paterno do romancista."


Continua

14.6.09

Aveiro Berço da Liberdade #2

in Marques Gomes, Aveiro Berço da Liberdade, pp. 15-16

(...)

II


ENTHUSIASMO, por assim dizer una-
nime que produzira o systema consti-
tucional, inaugurado pela revolução de
24 d'agosto, foi arrefecendo pouco a pouco e o
numero de descontentes augmentando de dia
para dia.

Afim de manter aquelle enthusiasmo, e de
inutilisar qualquer esforço que partisse destes
para restaurar o absolutismo, estabeleceram-se
em alguns pontos do paiz differentes sociedades
politicas, mais ou menos secretas. Foi enorme
o incremento que tomou então em Portugal a
maçonaria. Aveiro teve também a sua loja ma-
çónica, que foi a da quinta dos Santos Martyres.
Tem sido ignorada pelos escriptores que até
hoje se teem occupado da historia da maçonaria
em Portugal, a existência d'esta loja, de que a
tradicção constante em Aveiro é testemunho.
Durante muito tempo, e isto succedia ainda ha
quarenta ou cincoenta annos, a casa da quinta
dos Santos Martyres era olhada pelo povo com
horror: ah, dizia-se, os pedreiros hvres deram
tiros na imagem de Nosso Senhor Jesus Christo,
e praticaram outras idênticas atrocidades. Apon-
tavam-se a medo os nomes dos associados, mas
occultava-se quasi sempre o enormíssimo serviço
prestado por esses maus homens á causa da li-
berdade nas suas reuniões. De nada se tratou
de contrario á religião, pois quasi todos, senão
todos, eram fervorosos catholicos, e d'isto da-
vam publico testemunho, como nol-o asseveram
pessoas dignas de todo o credito, ainda feliz-
mente vivas, como são os srs. conselheiro José
Ferreira da Cunha e Sousa e José Maria Ri-
beiro.

Seria hoje inteiramente impossivel organisar
a lista dos membros da loja dos Santos Marti-
res, se não fosse a devassa a que, em virtude do
decreto de 20 de junho de 1823, se procedeu
n'esta comarca e de que nos ofíereceu uma co-
pia authentica o distincto publicista sr. dr. José
Francisco Lourenço d'Almeida e Medeiros, que a
encontrou, entre os papeis de seu pae, o desem-
bargador Francisco Lourenço d'Almeida, liberal
decidido, que fora quem mais concorrera para a
organisação da mesma loja. Por este documento
e por outras informações que pude colher ha
annos, vê-se que fizeram parte d'ella: Francisco
Lourenço d'Almeida, desembargador da relação
da Bahia e natural de Fermelã, concelho de Es-
tarreja ; Filippe António Monteiro, Bazilio de
Oliveira Camossa, sargento-mòr de ordenanças
e cavalleiro de Malta (o irmão terrível); António
Cardoso de Barros Loureiro Sequeira e Qua-
dros, de Couto de Esteves; João dos Santos Re-
zende, negociante (o irmão aridador) ; Caetano
Xavier Pereira Brandão, ex-juiz de fora da co-
marca (o interrogador); Carlos Cardoso Moniz,
provedor da comarca; José Joaquim Homem, juiz
de fora d'Eixo; António José de Castro, juiz de
fora de Recardães ; António Xavier Cerveira e
Sousa, juiz de fora de S. Lourenço do Bairro;
António Joaquim Santiago, ex-juiz de Oliveira
do Bairro; dr. Manuel da Rocha Couto, lente de
cânones e natural d'ílhavo, deputado na primeira
legislatura que se seguiu ao congresso consti-
tuinte; dr. João Agostinho Martins da Silva, de
Sever do Vouga; dr. Joaquim José de Queiroz,
desembargador da Relação da Bahia (irmão rosa
cruz); António José dos Santos, ajudante do ba-
talhão de caçadores lo; Telles, tenente de caça-
dores lo; Luiz Gomes de Carvalho, tenente-coro-
nel de engenharia e encarregado das obras da
barra (o cavalleiro da vingança); Carlos Cardoso,
provedor da comarca (o cavalleiro do punhal);
António de Azevedo e Cunha, tenente-coronel de
caçadores lo (o irmão venerável) ; António Cle-
mente Cardoso, José Maria da Fonseca Moniz,
tenente de caçadores lo e mais tarde general e ba-
rão de Palme; Castro, tenente de caçadores lo:
dr. Joaquim de Chuqre Albuquerque, de Sever do
Vouga; dr. João Nepumoceno da Silva Figuei-
redo, monteiro-mór de Ovar; António Carlos de
Mello, bacharel em medicina; dr. Luiz Cypriano
Coelho de Magalhães, pae de José Estevão; Eva-
risto Luiz de Moraes, escrivão do geral: dr. Agos-
tinho Pacheco Telles, da Aguieira, depois sub-
prefeito do districto de Aveiro e senador na le-
gislatura em 1839 a 1841; Filippe António .Mon-
teiro Baeta, alferes de caçadores 10, e dr. João
Gonçalves .Aleirelles Monteiro.

Victoriosa a revolução que proclamou o resta-
belecimento dos inauferíveis direitos de D. João vi,
foi em 8 de junho de 1823, por ordem do go-
vernador militar interino d'esta cidade, barão
de Villa Pouca, passada minuciosa busca á casa
e quinta dos Santos Martyres.


Continua

13.6.09

Aveiro Berço da Liberdade

Descobri uma jóia no ano em que se comemoram os 250 anos de elevação de Aveiro a cidade! E este é um daqueles tesouros que se quer partilhar...



Aveiro Berço da Liberdade - O Coronel Jeronymo de Moraes Sarmento,
por João Augusto Marques Gomes, Porto, Imprensa Portuguesa, 1900
[
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Aveiro foi a primeira cidade onde appareceu de facto o primeiro grito de guerra contra as pretensões de D. Miguel, levantado na manhã do dia 16 de maio pelo ba-
talhão de caçadores 10 e por vários cidadãos com elle associados.


Soriano — Historia do cerco do Porto.
Lisboa, 1S46. Tomo i, pag. 240.


ENTHUSIASMO pela liberdade, em
Aveiro, vem de longe, data de 1820.
Os trabalhos do synhédrio portuense
tinham ramificações n'esta cidade. Uma parte da
officialidade de caçadores 10, o tenente-coronel
de engenheria Luiz Gomes de Carvalho, e o
desembargador Fernando Alfonso Geraldes, que
ambos então aqui residiam; o juiz de fora José
de Vasconcellos Teixeira Lebre, alguns vereado-
res e outras pessoas mais, estavam no segredo
da revolução; e, se não se secundou logo o mo-
vimento de 24 d'agosto, foi isso devido unica-
mente á intransigência do commandante d'aquel-
le batalhão, um official inglez, aliás muito dis-
tincto e disciplinador, o major Linstow.

No dia 26 chegou a Aveiro, vindo de Lisboa,
o marechal de campo Manuel Pamplona Carneiro
Rangel, que, pela regência, havia sido encarrega-
do do commando militar do Porto e que para ali
se dirigia. Novo embaraço para a revolução que
se preparava. Pamplona, informado dos succes-
sos do Porto, e vendo que não podia confiar em
que Aveiro se conservasse fiel ao governo de Lis-
boa, attenta a exaltação de espirito que se prin-
cipiava a notar em muitos dos seus habitantes,
retrocedeu para Coimbra no dia 29, levando com-
sigo caçadores 10. N'esta cidade ficou apenas
uma parte do regimento de miilicias e uma com-
panhia de veteranos. Ao tempo já o juiz de fora
Teixeira Lebre, havia sido informado do Porto,
por Luiz Gomes de Carvalho, que se dirigia para
aqui com o batalhão de caçadores 11, o coro-
nel Bernardo de Castro Sepúlveda, afim de au-
xiliar o pronunciamento da cidade.

Logo que sahiu Pamplona para Coimbra,
aquelle magistrado assentou com a camará, de
que fazia parte como vereador Manuel Sebastião
de Moraes Sarmento (chefe da familia que de-
pois em Aveiro mais padeceu pela liberdade, e
pae de Jeronymo de Moraes Sarmento, cuja bio-
graphia é o assumpto principal d'este trabalho),
que a proclamação do novo governo se fizesse
na manhã do dia 30, e que ella coincidisse com
a chegada do coronel Sepúlveda.

Assim se fez. Pelas dez horas da manhã
d'aquelle dia — ao apparecer aquelle valente cau-
dilho da liberdade, vindo de Albergaria-a-Velha
e Angeja, onde acabava de levantar o grito da
revolta, ouviram-se enthusiasticos «vivas á santa
religião, a el-rei D. João vi, ás cortes e á consti-
tuição», dados pelo regimento de milicias de
Aveiro, e companhia de veteranos, e povo, que
estacionava em frente da casa da camará, onde,
ao tempo, se achavam já reunidos todos os ve-
readores, as auctoridades da comarca, e o clero,
nobreza e povo.

Pelo juiz de fora foi proposto, que esta cida-
de devia adherir ao movimento iniciado no Por-
to, reconhecendo a «Junta provisória do supre-
mo governo do reino» que ali se acabava de es-
tabelecer, o que foi approvado por- acclamação
no meio de calorosos vivas.

De tudo se lavrou auto no livro das verea-
ções que depois, por ordem da secretaria dos
negócios do reino de 21 de agosto de 1823, foi
aspado de sorte que se não lê. Contém o auto
approximadamente cento e vinte assignaturas,
entre as quaes se lêem, ainda que a custo, as
de Fernardo de Castro Sepúlveda (è a primei-
ra), José de Vasconcellos Teixeira Lebre, juiz de
fora; Manuel José de Freitas, João Nepumoceno
da Silva, António José de Freitas, Fernando
Affonso Geraldes, Luiz Gomes de Carvalho, An-
tónio José Gravito da Veiga e Lima, tenente-co-
ronel de milicias de Oliveira d'Azemeis ; João
Rangel de Quadros, Dionysio de Moura Couti-
nho, capitào-mór de Esgueira ; Miguel Rangel
de Quadros, capitão-mór de Aveiro; Francisco
Rodrigues de Figueiredo, capitão-mór de Eixo;
António Rangel de Quadros, Francisco António
de Castro, Joaquim António Rodrigues Galhar-
do, Alexandre Ferreira da Cunha, Gabriel Lo-
pes de Moraes Picado de Figueiredo Balacó,
Manuel José Alves Ribeiro, capitão de vetera-
nos; Francisco José d'0liveira, cirurgião-aju-
dante de caçadores 10; Joaquim António Plá-
cido, cidadão advogado; José Lucas de Sou-
sa da Silveira, José Pereira da Cunha, cidadão
medico do partido da camará; Bazilio d'0liveira
Camossa, sargento-mór; Lourenço Justiniano da
Costa, Manuel Rodrigues Tavares de Araújo
Taborda, António Dias Ladeira de Castro, Joa-
quim Leite de Faria, Bento José Mendes Gui-
marães, José António Rezende, Agostinho de
Sousa Lopes, Evaristo Luiz de Moraes, padre
José Bernardo Mascarenhas, João António Mo-
niz, alferes; Francisco Thomé Marques Gomes,
fr. Joaquim Xavier de Campos, fr. João Ribeiro
Guimarães.

Deprehende-se d'esta lista que esteve presente ao acto
tudo
que em Aveiro havia de mais distincto, e que, se
alguém faltou, foi involuntariamente, por que depois, successiva-
mente, vieram prestar juramento ás novas insti-
tuições os que então não tinham comparecido,
a principiar pelo bispo da diocese D. Manuel
Pacheco de Rezende.

O espirito da liberdade radicou-se bem de-
pressa no animo da maioria dos aveirenses, mas
isto não obstou a que o systema absolutista
contasse também aqui adeptos fervorosos.


Continua

3.6.09

Ontem voltei a atravessar a ponte ao fim da tarde #5

«A cidade das bicicletas»

Apareceram, a família deu uns passeios ("senhores" moliceiros, não é preciso tratar mal a concorrência, acelerando à passagem das bicicletas aquáticas!)... mas não voltei a vê-las. Terei passado por lá a más horas ou foram elas que em má hora se foram já?

12.5.09

Fado Moliceiro

Morro de amor pelas águas da ria
Esta espuma de dôr eu não sabia
Sou moliceiro do teu lodo fecundo
Sou a Ria de Aveiro, o sal do mundo

Vara comprida
Tamanho da vida
Braço de mar
A lavrar, a lavrar

Morro de amor nesta rede que teço
E é no sal do suor que eu aconteço
Para além da salina
O horizonte me ensina
Que há muito mar
Muito mar p'ra lavrar
P'ra lavrar




"Fado moliceiro" é um fado com poema de José Carlos Ary dos Santos e música de Carlos Paredes. Do ponto de vista musical é uma obra rara. É dos poucos temas que Carlos Paredes tem com letra e interpretação vocal. Em 1983, Carlos do Carmo publica "Um homem no país". A sétima faixa do disco corresponde a este "Fado moliceiro". O disco vem na sequência de "Um homem na cidade", sobre Lisboa, propondo este novo trabalho uma viagem por vários espaços de Portugal, falando das suas gentes, trabalhos, paisagens, maneiras de ser e falar. Por morte do poeta destes dois discos - José Carlos Ary dos Santos morreria um ano depois do lançamento do disco -, não pôde realizar-se o desejo de fazer um intitulado "Um Homem no mundo".

10.5.09

Fósseis das maiores trilobites do mundo

Uma equipa internacional descobriu em Arouca vários grupos de fósseis de trilobites com 465 milhões de anos. Apesar de não haver espécies novas, a importância da descoberta deve-se à dimensão dos indívíduos que, segundo os investigadores, são os maiores do mundo. Os fósseis ultrapassavam os 30 centímetros de comprimento.


Esta notícia dá-nos mais um bom pretexto para uma visita ao Centro de Interpretação de Canelas - Arouca.

8.5.09

Desfile das Festas do Quacky, para quackies


As Festas do Município de Aveiro iniciam-se no próximo sábado, dia 5, e prolongam-se até ao dia 20 de Maio. O Dia do Município será comemorado a 12 de Maio, com a realização de actividades culturais, lúdicas e desportivas dirigidas a todos os tipos de público. Os festejos prevêm vários concertos musicais, provas desportivas na Ria de Aveiro, exposições, ateliers e oficinas para as crianças, caminhada para os idosos e a sessão solene de entrega das Distinções Honoríficas. O programa das Festas do Município é o seguinte: Dia 5 de Maio Das 14.00 às 19.00 horas – de Terça a Domingo – até 24 de Junho - Exposição de Pintura “Espaço, Tempo e Movimento” de Nuno Gandra: - Exposição de Fotografia “Redenção” de Valter Ventura Museu da Cidade Das 9.00 às 20.00 horas – Basquetebol – Torneio Santa Joana Pavilhão Clube dos Galitos e Pavilhão Aristides Hall da Universidade de Aveiro. 17.00 horas – Inauguração da Exposição de Fotografia “Rialidades” de Rui Bela - Patente até 3 de Junho – de Terça a Domingo – das 14.00 às 19.00 horas Galeria da Capitania 21.30 horas – Encontro de Escolas de Música - Participação da Associação Musical e Cultural de São Bernardo, Associação Recreativa Eixense, Banda Amizade, Banda e Escola de Música da Quinta do Picado, Grupo Cultural e Recreativo da Taipa, Sociedade Musical Santa Cecília e Tuna Santa Joana Centro Cultural e de Congressos de Aveiro 21.30 horas – Concerto pelo Coral Musicarte da Amadora e Coral São Pedro de Aradas Centro Cultural de Aradas Dia 6 de Maio Das 9.00 às 20.00 horas – Basquetebol - Torneio Santa Joana Pavilhão Clube dos Galitos e Pavilhão Aristides Hall da Universidade de Aveiro Das 9.00 às 18.00 horas – Troféu Perícia Automóvel Cais da Fonte Nova Das 10.30 às 12.30 horas – Ateliers de brinquedos e fantoches pelo Arlequim – Teatro para a Infância Rossio 14.30 horas – Desfile Etnográfico - Rua Dr. Alberto Souto, Avenida Dr. Lourenço Peixinho, Rossio 15.00 horas – Festival de Folclore: - Rancho Folclórico “As Lavradeiras de Sarrazola”; Grupo Folclórico do Carregal; Grupo Folclórico de Esgueira; Rancho Folclórico do Baixo Vouga; Grupo Folclórico da Casa do Povo de Cacia. Rossio 15.30 horas -Inauguração da Exposição “A liberdade: um desafio aos jovens” (até 13 de Maio) Biblioteca Municipal de Aveiro 18.00 horas – Concerto de Música da Renascença - Participação do Grupo de Danças Antigas Josefa d’Óbidos e do “Concentus Allavarium” do Coral São Pedro de Aradas Claustros da Misericórdia Dia 8 de Maio 22.00 horas –Concerto - Amizade Big Band Rossio Dia 9 de Maio 22.00 horas –Concerto - Trio Bossa JAZZ Rossio Dia 10 de Maio 18.00 horas – Combos de Jazz da Escola Riff Praça Joaquim Melo Freitas 21.30 horas -Palestra “Fé e Razão: as asas da liberdade”por Sua Excelência Reverendíssimo D. António Francisco dos Santos, Bispo de Aveiro Biblioteca Municipal 22.00 horas – Concerto – Icon Vadis (música folk celta) Rossio Dia 11 de Maio Das 10.00 às 17.00 horas – Basquetebol - Fase Regional do Compal Air Cais da Fonte Nova Das 10.00 às12.30 horas – Caminhada “FelizIdade” Parque Infante D. Pedro 22.00 horas - Concerto - Danças Ocultas Rossio Dia 12 de Maio Das 9.30 às 13.00 horas – Modelismo - Regata de Divulgação de Modelos à Vela Cais da Fonte Nova 10.00 horas - Hastear da Bandeira Paços do Concelho Das 10.30 às 11.10 horas: Desfile de Bandas e Fanfarras do Concelho - Associação Musical e Cultural São Bernardo, Associação Cultural e Recreativa “Fanfarra de São Jacinto”, Associação Recreativa Eixense, Banda Amizade e Banda e Escola de Música da Quinta do Picado. Percurso: Diversas artérias da cidade 10.30 horas – Missa Solene Sé de Aveiro 11.10 horas – Concentração e actuação de Bandas e Fanfarras do Concelho Praça da República 12.00 horas – Sessão Solene da Entrega das Distinções Honoríficas Salão Nobre dos Paços do Concelho 16.00 horas – Procissão Santa Joana (Percurso habitual) 17.00 horas – Chegada das embarcações do “I Troféu Rias Baixas – Rota da Luz” Rossio 18.00 horas – Serenata à Santa Joana Princesa pela Tuna Universitária de Aveiro Avenida Santa Joana (junto à estátua) 18.00 horas – Lançamento do livro “125 Anos dos Bombeiros Velhos”, integrado nas Comemorações dos 125 Anos da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Aveiro Auditório do Parque de Exposições de Aveiro 21.30 horas – Concerto pela Orquestra Filarmonia das Beiras interpreta “Te-Deum” de Charpantier com o Coral São Pedro de Aradas e “A Ver a Ria” de Eurico Carrapatoso com o Coral Polifónico de Aveiro, o Coral Vera Cruz, o Coro Santa Joana e o Coro de Câmara “Capella Antiqua” Teatro Aveirense Dia 13 de Maio Das 10.30 às 12.30 horas – Ateliers de brinquedos e fantoches pelo Arlequim – Teatro para a Infância Casa Municipal da Cultura – Edifício Fernando Távora Das 13.00 às 18.00 horas - Vela - Regata Santa Joana Princesa Costa Nova - Aveiro 14.30 horas – Sessão Solene (integrado nas Comemorações dos 125 Anos da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Aveiro) Quartel sede dos Bombeiros Velhos, sito Av. Mário Sacramento 16.00 horas – Espectáculo “Girafes” pelo Tirriquiteula Teatre (integrado na programação do Teatro Aveirense) Ruas da cidade 17.30 horas – Desfile dos Corpos de Bombeiros e viaturas do distrito de Aveiro (integrado nas Comemorações dos 125 Anos da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Aveiro). Av. Dr. Lourenço Peixinho Dia 14 de Maio Das 10.00 às 19.00 horas - Os Serviços Educativos vêm colorir mais cedo o Museu da Cidade! Museu da Cidade Dia 15 de Maio 22.00 horas - Tuna Universitária de Aveiro Rossio Dia 16 de Maio 18.30 horas - Lançamento do Livro "As Cabeças Cortadas" de Ana Clara Correia Biblioteca Municipal de Aveiro 21.30 horas – Dança e Poesia pela Companhia de Dança de Aveiro e Grupo Poético de Aveiro Claustros da Misericórdia Dia 17 de Maio Das 10.00 às 19.00 horas - Dia Mundial da Hipertensão - Campanha de informação sobre Hipertensão Artéria (consultar programa próprio) Praça Joaquim Melo Freitas 18.30 horas – Combo de Jazz da Oficina de Música de Aveiro Praça Joaquim Melo Freitas 21.30 horas - Concerto Coral. - Coro do Conservatório de Música de Aveiro, Coral São Pedro de Aradas, Coral Vera Cruz, Coral Polifónico de Aveiro e Coro de Santa Joana. Centro Cultural e de Congressos de Aveiro 21.30 horas – Concerto Amizade Aveiro Bourges - Banda de Gaitas da Associação Musical e Cultural São Bernardo, Grupo Folclórico de Casa do Povo de Cacia e Groupe Folklorique le Troupian de St. Michel de Volangis, de Bourges Praça da República Dia 18 de Maio Todo o dia – Museus, Pontes entre Culturas integrado nas Comemorações do Dia Internacional dos Museus Várias pontes sob os canais urbanos da cidade 21.30 horas- Passagem de modelos “Vestir Arte” pela Escola João Afonso de Aveiro Praça da República 21.30 horas – Actuação da Fanfarra de São Bernardo, Grupo de Percussão, Orquestra de Metais e Groupe Folklorique le Troupian de St. Michel de Volangis, de Bourges Centro Paroquial de São Bernardo Dia 19 de Maio XV AUTOMOBILIA, Feira Internacional de Trocas e Vendas Parque de Exposições de Aveiro Das 9.00 às 13.00 horas e das 14.00 às 18.00 horas – Futebol - Kid Cup Rossio Das 10.00 às 11.30 horas – Museus, Pontes entre Culturas integrado nas Comemorações do Dia Internacional dos Museus Várias pontes sob os canais urbanos da cidade 16.00 horas – Inauguração da Feira do Livro - (até 3 de Junho) consultar programa próprio Rossio 16.00 horas – Animação de Rua pelo CETA Rossio 17.00 horas – Atelier para a infância pela associação Humaniarte Rossio 17.30 horas - Chegada do 1º concorrente do IV Rali Automobilia Liberty Seguros Parque de Exposições de Aveiro 21.15 horas – “Papá por favor apanha-me a lua”, “Adivinha quanto eu gosto de ti” e “O Gru falão” – Histórias contadas por Teresa Nogueira Rossio 21.30 horas – Peça de teatro “A Voz Humana”, a partir de Jean Cocteau, interpretação e encenação por Carolina Rodrigues Rossio Das 21.30 às 24.00 horas -VII Aniversário da Casa Municipal da Juventude de Aveiro - (Dj’s, Vj’s, apresentação performativa de dança e luz e demonstração da arte do fogo) consultar programa próprio Praça do Peixe 21.30 horas: Concerto “AVEIRORQUESTRA’07”com a participação da Orquestra Longreana de Plectro, (Asturias), Orquestra - Tuna Sociedade Musical Santa Cecília (Portugal) e Orquestra de Plectro de Espiel, (Andaluzia) Centro Cultural e de Congressos Dia 20 de Maio XV AUTOMOBILIA, Feira Internacional de Trocas e Vendas Parque de Exposições de Aveiro 9.30 horas – Prova Complementar integrada na XV AUTOMOBILIA Avenida Dr. Lourenço Peixinho 17.00 horas – “Simão-Conto um conto” – espectáculo de marionetas pela S. A. Marionetas Rossio 21.15 horas – “Papá por favor apanha-me a lua”, “Adivinha quanto eu gosto de ti” e “O Gru falão” – Histórias contadas por Teresa Nogueira Rossio 21.30 horas - Atelier de poesia pela Ricoca Produções Inscrições prévias para o 964.643.084 Rossio (tenda)

28.4.09

Centenário do Vouguinha


No âmbito das comemorações do Centenário da inauguração da Linha do Vale do Vouga, foi criado um vasto programa de actividades. Entre elas:

Exposição Itinerante – Exposição comemorativa do Centenário da Linha do Vale do Vouga - O núcleo central é constituído por fotos que documentam a construção, infra-estrutura, material circulante e profissões ferroviárias. Em cada concelho por onde passa a exposição, esta é enriquecida com os vários contributos do município visitado que, dessa forma, mostra o seu tecido produtivo e o seu desenvolvimento regional, através de diversas actividades. O caminho-de-ferro teve um papel fundamental neste desenvolvimento, transportando passageiros e mercadorias e traçando novas acessibilidades. A exposição itinerante começou em Oliveira de Azeméis, já passou por Santa Maria da Feira, Águeda, está agora em Albergaria-a-Velha (Abril, coincidindo com a chegada do comboio ao município); Aveiro (Maio, coincidindo com as festas da cidade); Espinho (Junho e Julho); e, por último, S. João da Madeira (Outubro).

Concurso de Trabalhos – Reinventar a História do Vale do Vouga – Elaboração de trabalhos pelos alunos, relacionados com o tema central das comemorações, nomeadamente fotografia, narrativa, poemas, desenhos, que serão submetidos a um Júri, composto pelos sete concelhos envolvidos (Águeda, Albergaria-a-Velha, Aveiro, Espinho, Oliveira de Azeméis, Santa Maria da Feira e S. João da Madeira), CP, REFER, Fundação do Museu Nacional Ferroviário. Os trabalhos deverão ser enviados, até ao final do ano lectivo, para o Serviço de Arquivo da Câmara Municipal de Águeda através do endereço do correio-electrónico: manuela.almeida@cm-agueda.pt

Aos vencedores serão atribuidos prémios em viagens, entregues pela CP no final das comemorações (Outubro/Novembro).

Visitas a Museus – Da Carroça...ao TGV (€3 por pessoa) com a realização de diversas acções relacionadas com o tema da Linha do Vale do Vouga, tentando recriar a história da evolução dos transportes. A deslocação será garantida pela Câmara Municipal de Águeda e estará dependente do número de inscrições.

Maquinistas por um dia – Visitas gratuitas ao Museu Ferroviário de Macinhata do Vouga, permitindo contactar de perto com a realidade da função diária de um maquinista. O transporte será feito de automotora e será oferecido pela Câmara e pela CP dependendo do número de inscrições.

Projecção de filmes (no Município ou no Museu Ferroviário de Macinhata do Vouga, das 9:00 às 13:00 e das 14:00 às 17:00) que de algum modo estejam relacionados com as comemorações. As datas, bem como as horas de exibição estão dependentes do número de inscrições.


[Imagem do Arquivo Digital]

13.4.09

Síndroma Audrey Hepburn

É impressão minha ou cada vez há mais gente a circular de bicicleta...?


7.4.09

Há flamingos na Murtosa

Público - Fugas
4 Abril 2009


Há flamingos na Murtosa
Não há outra maneira de dizer isto, nem valem a pena eufemismos ou introduções: há flamingos na Murtosa, e isso é uma excelente notícia. Temos de começar por aqui, porque sabemos que esta notícia não é coisa pouca. Mesmo os mais distraídos saberão que não é comum encontrar estas aves migratórias no Norte de Portugal - aliás, estamos mais habituados a pensá-los em África, ou na América do Sul, mas eles também vivem nos estuários do Tejo e do Sado. Pois parece que agora não estão apenas de passagem pela ria de Aveiro, mas que se instalaram na margem esquerda, ao longo do percurso ribeirinho da Murtosa, acrescentando um argumento de peso no já vasto rol de motivos para visitar o percurso desenhado pelo projecto NaturRia.
O percurso tem já quilómetros, numa estrada que sempre lá esteve, e faz parte da mobilidade da região. Mas desde Setembro que foi transformado num traçado misto que, pela sua planura, é cem por cento ciclável. Se as bicicletas ganham um aceitável protagonismo, nada contraria as boas intenções que surjam para realizar o passeio a pé, ou mesmo de carro (ok, desta vez deixa-se passar, mas só se os acompanhantes mais novos do passeio forem demasiado pequenos para pedalar dez quilómetros, ou haja intenção de fazer um opíparo piquenique, cujos víveres ocupem mais de metade da bagageira do automóvel).
Preferencialmente a pé, ou de bicicleta - até porque são modos bem menos perturbadores do habitat natural que pretendemos visitar -, a única coisa obrigatória para tirar um melhor partido deste passeio é a paragem nas placas explicativas que existem ao longo do percurso, e que disponibilizam informações temáticas que muito enriquecem a jornada.
A Primavera já chegou oficialmente - apesar de as temperaturas que se têm sentido até já terem feito lembrar o Verão -, está mais do que na altura de tirar as sapatilhas do armário, as bicicletas da arrecadação, e, já agora, para quem os tiver, os binóculos da gaveta. Eles poderão dar jeito, entre outras coisas, para ver as limícolas, as pequenas aves pernaltas que se alimentam nos limos das margens.
A natureza é tão perfeita que as criou com tamanhos de bicos diferentes, e é possível ver pilritos, maçaricos, mas também borrelhos (por aqui há muitos da espécie borrelho-de-coleira-interrompida, já que se reproduz na ria e por lá vive todo o ano), gaivotas, garças, patos e muitas outras aves a alimentarem-se nas vazas das marés, com cada espécie a retirar nas vazas o seu alimento a profundidades diferentes.
Quando a Fugas por lá andou, numa radiosa manhã de Março, não precisou de binóculos para assistir a uma das mais bonitas coreografias que é possível desenhar no céu, tendo o corpo de baile sido um numeroso bando de flamingos. A culpa foi de um avião que sobrevoava ria a pequena altitude e fez levantar o bando. Mas o resultado foi uma sincopada dança nos céus, tão bonita quanto indescritível.
O voo dos flamingos, por si só, já valeria a deslocação à Murtosa. Mas é mais do que justo referir que nem que eles por lá não andassem haveria razões de sobra para justificar o passeio. Que os flamingos não nos ouçam - foi tão difícil tê-los por cá que ninguém quer que eles se vão embora. Explica-nos o biólogo Rui Brito que os flamingos são de tal modo exigentes no seu habitat que só a qualidade das intervenções que têm vindo a ser feitas, a nível supramunicipal, permitiu uma presença mais intensiva destas aves. Deixemo-los, então, sossegados e vamos agora aos outros argumentos.

Moliceiros e outros barcos
Até agora só falamos de aves - e são muitas e variadas as que se podem avistar durante o percurso - e ainda não é desta que as vamos abandonar. Porque as gaivotas que vivem pela região merecem referência, sobretudo nesta altura, em que se vestem de plumagens nupciais. Não é eufemismo: é mesmo o termo técnico que, por exemplo, veste actualmente o guincho comum, que começa a surgir com a cabeça preta...
Gaivotas, garças, cegonhas, maçaricos e pilritos, fuinhos dos juncos e borrelhos - todas espécies avistadas pela Fugas durante a sua visita, mas há mais por lá... até morcegos e corujas, garantem-nos. Esta insistência nas aves não é forçada - não é por acaso que a ria de Aveiro é Reserva Ecológica Nacional, e é internacionalmente reconhecida como Zona de Protecção Especial para as Aves na Rede Natura 2000.
Se não tiver conhecimentos aprofundados de Botânica e Biologia, as placas temáticas que foram colocadas ao longo do percurso tratarão de lhe dar as informações essenciais e lhe apontar os factos mais curiosos - às vezes eles estão debaixo do nosso nariz e não reparamos neles. Textos simples, bem ilustrados, e que permitem saber, por exemplo, que há mais de 40 embarcações diferentes que percorrem a ria. O moliceiro é, justamente, um dos mais conhecidos, mas ao longo do percurso, e com as paragens nos cais da Bestida, da Mamaparda, e mesmo na Ribeira de Pardelhas (pertíssimo do centro da Murtosa), poderá conhecer e cruzar-se com muitas mais embarcações.
Um dos aspectos mais relevantes deste projecto - e que o tornam altamente recomendável para ser feito em família - é a possibilidade de o calcorrear em estreita ligação com a população local, nos seus trabalhos agrícolas ou na sua actividade pesqueira (na apanha de crustáceos, bivalves ou da chamada "bicha" para a pesca).
Cada vez que for fazer o passeio, terá, com certeza, uma experiência diferente. E é por isso que vale a pena fazê-lo. Muitas vezes. Até porque ele tem uma grande e luxuosa vantagem nestes longos dias de crise económica: só precisa de usufruir e respeitar a natureza, não lhe vão pedir dinheiro nenhum de entrada.

Como ir
Pela A1, vindo de Lisboa, a saída de referência é a número 17, com indicação de Oliveira de Azeméis/Ovar/Estarreja; quem vem do Norte, pode optar pela A29 e sair na saída de Estarreja, tendo a vila de Murtosa como destino - está sinalizada. O percurso pode ser iniciado na Ribeira Nova, muito perto do centro da vila da Murtosa, ou, quem segue em direcção à Torreira, parar o carro antes de passar a Ponte da Varela, iniciando aqui o trajecto.

Link: http://www.cm-murtosa.pt/naturria

21.3.09

Uma tarde no Museu de Aveiro

Coro Alto
Foto MRF - 19 Março 09


Há qualquer coisa que por dentro mexe quando entramos no coro alto, mesmo que ele ainda esteja fechado ao público para trabalhos de restauro. Talvez também por isso. É como espreitar a intimidade de um lugar que é belo antes do seu novo despertar. Ouvimos as palavras do Rei da Babilónia e sabemos que os deuses são sábios quando ordenam o restauro do templo. No Convento de Jesus existiu desde muito cedo um coro duplo devido aos alagamentos frequentes da igreja e do coro baixo. O formato actual do coro alto remonta ao século XVIII. Esta sala, a visão da igreja através do gradeamento, justificam por si uma visita ao Museu de Aveiro.

Na quinta-feira passada,
tal como fora agendado, voltámos ao Museu. A Dra. Ana Margarida Ferreira estava à nossa espera, disposta a esclarecer e, certamente, a ouvir críticas ao projecto de «requalificação». À minha volta, encontrei pessoas de todas as idades e com interesses e actividades diversificados. Estudantes de arqueologia, professores, urbanistas, enfermeiras reformadas, membros da Aderav, des-organizados, habitantes da cidade de nacionalidade portuguesa ou brasileira, em pouco tempo formaram um grupo animado, pronto a discutir a intervenção do arquitecto Soutinho e a problemática da gestão do (nosso) património. Responderam ao desafio que lancei neste blogue e num jornal da região. Eu e os Amigos da Avenida!

Há qualquer coisa que por dentro mexe quando se partilha um interesse comum. Penso que a directora do Museu de Aveiro rapidamente sentiu que a intenção daquelas pessoas não era a crítica fácil. Como outros espaços da cidade, o Museu de Aveiro é memória - política, socio-cultural, afectiva. O Museu integra a História e o nosso quotidiano, é um marco da identidade de um vasto conjunto de cidadãos. que pertencem a um lugar, que trazem o mundo para esse lugar. e por isso têm aspirações de saber e de intimidade. Para além da aparente indiferença, existe o desejo de participação na discussão dos projectos da Polis - que deve ser pública e amplamente divulgada. Questão ainda mais pertinente dada a especificidade deste espaço: é um Monumento Nacional, é um espaço de museológico, tem uma vocação científica e educativa.

Não tenho dúvidas de que a directora do Museu partilha esta visão. A abertura e disponibilidade que revelou vão ao encontro deste sentir político. Este projecto de «requalificação» de um Monumento Nacional simplesmente nasceu torto. Porque ainda não havia legislação que o obrigasse, não foi sujeito a concurso público. A «maquete» (?) foi apresentada ao público durante um curto período de tempo. Poderes políticos e media não fomentaram a sua discussão (sim, eu penso que ambos têm uma missão que transcende o imediatismo e a facilidade). Os cidadãos não reagiram a tempo de poder influenciar qualquer decisão.

Sendo assim, como bem afirmou a Dra. Margarida Ferreira, há que aprender com os erros do passado e estar mais atento. A cidade, o país, oferece-nos com demasiada frequência topoi relacionados com a defesa do nosso património.

A visita na passada quinta-feira não soube, contudo, a esforço vão. Quem esteve presente, saiu do Museu mais esclarecido relativamente a uma série de questões e decisões.

1. Em primeiro lugar, convém deixar clara a posição da sua directora. Quando assumiu o cargo,
a obra estava pronta para ser adjudicada.
2. A descoberta de construções antigas e de milhares de artefactos arqueológicos no decorrer das obras está documentada: a empresa Mythica acompanhou todo o processo e é ela que detém agora os «contentores» com as peças desenterradas. Segundo a directora do Museu de Aveiro, os achados estão agora a ser catalogados pela mesma empresa, devendo o estudo ser moroso. A Dra. Ana Margarida Ferreira sugeriu a possibilidade de antecipar uma exposição temporária sobre as escavações arqueológicas efectuadas. A decisão de voltar a enterrar as estruturas antigas permanecerá polémica.
3. A visita não modificou a minha opinião nem, penso, a da maioria dos outros participantes - no que diz respeito às opções estéticas do arquitecto. O sentimento geral continua a ser o do desvirtuamento do espírito conventual, além de que a intervenção foi muito invasiva. A construção da ponte de acesso ao segundo andar é o exemplo mais evidente.
4. Outros aspectos negativos, relacionados com a funcionalidade e custo de manutenção do espaço, foram realçados. O mais importante será o custo energético. O sistema de ar condicionado terá que funcionar continuamente, uma vez que as janelas amplas permitem a entrada directa de luz solar, criando um efeito «estufa» prejudicial à conservação das obras de arte expostas.

Estes são apenas alguns dos tópicos abordados na visita. Lamentavelmente, foram poucos os jornalistas presentes nesta visita guiada e a cobertura dada às explicações da Directora do Museu de Aveiro foi diminuta. Dar evidência a este tipo de informação implicaria mais os cidadãos e os responsáveis políticos. Integraria o Museu nas conversas quotidianas. Chamaria a atenção dos mais distraídos para a existência de um espaço - que é antigo -, mas que terá agora novas valências. Exposições temporárias, biblioteca, um pequeno auditório, um novo espaço de convívio. Talvez incentivasse mais pessoas a reanimar a AMUSA (amigos do Museu) ou a prestar serviços de voluntariado.

O Museu de Aveiro tem um novo rosto, gostaríamos que não tivesse perdido tantas rugas, mas continua ali à nossa espera. Foi bom revisitá-lo em tão boa companhia. Agradeço à Dra. Ana Margarida Ferreira o momento de excepção, ao Prof. José Carlos Mota tê-lo tornado possível e, a todos os parceiros da visita, a troca de pontos de vista e o ambiente de saudável carolice.

Apetece-me dizer «Até breve!».

18.3.09

Memorando Visita ao Museu de Aveiro



DIA 19 DE MARÇO, ÀS 14H30, TODAS AS PESSOAS INTERESSADAS EM APRECIAR E DEBATER A «REQUALIFICAÇÃO» A QUE O MUSEU DE AVEIRO FOI SUJEITO, TERÃO A POSSIBILIDADE DE O FAZER NA COMPANHIA DA SUA DIRECTORA, DRA. ANA MARGARIDA FERREIRA.

14.3.09

Percursos com História


Sábado, 14 de Março: A CIDADE EMERGENTE [SÉC. XVII-XVIII]

Percursos temáticos em que se explora a percepção da comunidade numa perspectiva dinâmica e evolutiva da paisagem histórica de Aveiro.
Esta iniciativa dá vida ao conceito de museu polinucleado que tem na cidade continuidade do próprio espólio museológico do Museu da Cidade de Aveiro.

Próximos Percursos:
A Villa de Aveiro [até ao século XVII]: 09 de Maio; 12 de Setembro
A Cidade Emergente [até ao século XVIII]: 13 de Junho; 10 Outubro
A Cidade Contemporânea [séc. XIX-XX]: 18 Abril; 11 Julho; 14 Novembro

Público-alvo: Público em Geral
Orientador: Dr. Amaro Neves
Local de encontro: Praça da República, junto ao Monumento a José Estêvão
Horário: 11h00 – 13h00
Número Máximo de participantes por percurso: 30
Sujeito a inscrição prévia: museucidade@cm-aveiro.pt 234 406 485



[Imagens: Convento de Jesus e igreja de S. Domingos.1915.1905]


P.S.: Uma exposição de fotografia de Aveiro Antigo poderá ser visitada de 7 de Março a 5 de Abril, de Terça a Domingo, das 14.00 às 19.00 horas, na Galeria dos Paços do Concelho. Tem entrada livre.

12.3.09

Era uma vez em Aveiro

Eu sou Nabonidus, Rei da Babilónia (...) num dia favorável para o meu reinado, o deus Shamash lembrou-se da sua antiga casa, e foi a mim, Rei Nabonidus, quem ele encarregou da tarefa de restaurar o templo e de refazer a sua casa...”.

Este texto de Nabonidus, do século VI A.C., testemunha um desejo humano ancestral: o de conservar e restaurar a história das sociedades e da sua cultura. Contudo, a intenção deliberada de conservar, revelada pelo Rei, não era inocente. As suas motivações eram de ordem religiosa, mas também políticas. Passados mais de dois mil anos, o que nos leva a querer conservar e restaurar o nosso património? O fervor religioso (ainda...), interesses políticos (num sentido muito amplo), económicos, a vontade de educar, a busca da história- identidade de um povo ou região, a aspiração ao belo. Não estamos assim tão distantes do Rei da Babilónia!

Infelizmente, também muito cedo na história da humanidade, aconteceram actos de destruição do património. Na sua origem: o fanatismo religioso, o activismo político, as guerras, o mercantilismo, a ignorância, a negligência, a desvalorização ou rejeição do passado, ou apenas um desejo de ampliar, de refazer, de recriar livremente.

A consciência da importância do nosso património e da necessidade de o conservar, pelo que representa em termos de memória colectiva e pelas suas qualidades intrínsecas, amadureceu a partir do século XIX, quando a curiosidade pelo passado se transformou em História. Surgiram os debates, acesas polémicas, em torno dos conceitos de restauração e conservação, que, à época, foram colocados em campos opostos. O arquitecto Eugène Viollet-le-Duc, um dos primeiros teóricos da preservação do património histórico, afirmava em 1886 que restaurar um edifício não era preservá-lo, repará-lo ou reconstruí-lo; restaurar significava recriar a forma na sua totalidade, pelo que o resultado seria algo que forçosamente nunca existira antes. A crítica veio de Inglaterra. Membros da famosa Irmandade Pré-Rafaelita, amantes do medievalismo, os românticos John Ruskin e Willian Morris, consideravam que restaurar era reduzir o trabalho original a nada. Segundo Ruskin, «... a maior glória de um monumento não é as suas pedras, nem o seu ouro. A sua glória está na sua Idade».

Os pressupostos modernos da conservação do património fusionam os princípios essenciais destas duas correntes oitocentistas. Aceita-se a restauração como operação legítima, desde que não falsifique a evidência. No século XX, o desenvolvimento destas ideias traduziu-se na produção de vários instrumentos internacionais orientadores dos trabalhos de conservação do património. A Carta de Atenas (1931) constitui a primeira tentativa de fixação de princípios éticos a nível internacional. Estabelece a necessidade de criar medidas legais de protecção do património, a primazia da conservação face à restauração, o respeito pela integridade dos monumentos e pelas contribuições de idades diferentes, a necessidade de documentação. Estes princípios foram reafirmados na Carta de Veneza (1964) e, em 1972, a Convenção para a Protecção do Património Mundial, Cultural e Natural, foi adoptada na Conferência Geral das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. Actualmente, mais de 160 países ratificaram essa Convenção. Portugal aderiu em 1979. Podemos ler no sítio do IPPAR que promover uma ética de conservação do património «é, sem dúvida, um grande desafio, particularmente numa época onde a globalização económica conduz todas as nações a perseguir um desenvolvimento acelerado, por vezes pouco preocupado com as consequências para o futuro

É com esta declaração que regresso a Aveiro. No decorrer das obras de ampliação e «requalificação» do Museu de Aveiro iniciadas em 2006, foi noticiada a descoberta de construções antigas, estruturas do antigo Convento de Jesus, e de “milhares de peças” (agência Lusa). Um técnico da Mythica, empresa de arqueologia que acompanhou a obra, informava que estava a ser feita «a exploração de duas valas próximas da antiga cozinha do Convento de Jesus, de onde tem saído grande quantidade de faiança do século XII e posterior, como taças, tigelas, formas e mesmo fragmentos de vidro». Na mesma altura, a Directora do Museu adiantou ao DA que «foi feita a escavação, registada por métodos fotográficos e desenho» e que seriam feitos apenas «pequenos ajustes» ao projecto inicial do arquitecto Alcino Soutinho, algo «totalmente consensual entre todos os interessados». No dia 5 de Março, em resposta a um post que escrevi relatando as minhas impressões da visita ao Museu «requalificado» (nos blogues Divas & Contrabaixos e Quarto Com Vista para a Cidade de Aveiro), a Dra. Ana Margarida Ferreira confirmou que «as estruturas arqueológicas estão documentadas e enterradas, o espólio está acautelado». Os critérios que foram tomados em consideração para a prossecução normal dos trabalhos, os «pequenos ajustes» ao projecto que as descobertas arqueológicas eventualmente produziram, a documentação produzida, a quantidade e caracterização do espólio recolhido, são dados a que os cidadãos, nesta era da informação e do conhecimento, não têm acesso. E o Museu reabriu sem nenhuma exposição que desse conta das escavações e descobertas arqueológicas!

Centremo-nos agora no edifício que alberga o Museu de Aveiro. É classificado Monumento Nacional em 1910, ainda antes da fundação do então designado Museu Regional de Aveiro (1911). Afirmar que o Convento de Jesus integra o espaço museológico é redutor. O valor do património que foi agora «requalificado» deriva das origens, história e arquitectura conventuais. Qualquer intervenção no Museu deveria assim ser concebida tendo em conta a totalidade do espaço histórico, nunca esquecendo a sua natureza especifica e original. O projecto do arquitecto Alcino Soutinho conseguiu o inimaginável: nas salas onde estão expostas as colecções dedicadas à Princesa Santa Joana e as de arte sacra, o visitante esquece-se que está num espaço conventual! Nos anos 30 foram demolidas paredes de celas para criação de salões de exposição. O princípio ético da intervenção minimamente invasiva em monumentos com valor histórico ainda não tinha sido ratificado. Mas o projecto actual removeu as paredes que restavam, destruiu por completo a antiga entrada do Museu, rasgou uma ponte de betão no interior do convento, fechou as portas do claustro alto,... e mais não sei porque uma parte do museu está ainda vedada ao público. Naturalmente, o Museu merecerá sempre a nossa visita. A Igreja de Jesus, a capela-mor, o coro baixo e o coro alto, os túmulos de Santa Joana, do Duque de Aveiro e de João Albuquerque, as colecções de pintura, escultura, talha, azulejaria, ourivesaria, joalharia, paramentaria, cerâmica (essencialmente de índole religiosa) são tesouros que têm um valor universal. Mas estranho. Estranho a aprovação deste projecto. Estranho que a belíssima Botica conventual não possa mais voltar ao espaço que anteriormente ocupava ou a qualquer outro, dadas as suas dimensões e a filosofia de descontextualização das peças dos seus ambientes. Estranho que um investimento de cinco milhões de euros, valor estimado da obra (sendo a comparticipação comunitária de metade), não abranja o restauro do claustro e sua azulejaria. Estranho que a necessidade objectiva de construção de um corpo novo, destinado a sala de exposições temporárias e reservas, biblioteca e laboratórios de conservação, gabinetes, auditório e café, tenha levado a uma excessiva relativização do valor histórico deste Monumento Nacional. O fantasma da paralisação do futuro dominou a vontade ancestral de preservar o passado. «É preciso ver a cultura como um factor de desenvolvimento», afirmou a secretária de Estado da Cultura no dia da reabertura do Museu de Aveiro (18-12-2008). Sei que a forma como olhamos para uma obra é subjectiva. Eu penso que o Museu perdeu memória. John Ruskin diria que houve «profanação». Que importa! Venham os novos projectos, as novas actividades, as exposições temporárias! Porque público é preciso! Cidadãos é que nem tanto...


... ou não! Na declaração já referida, a Dra. Ana Margarida Ferreira declarou ser «completamente adepta da discussão pública dos assuntos de interesse público» e disponibilizou-se para «discutir conceitos e opções de intervenção em museus e monumentos». Dado a sua incontestável competência e determinação, a questão dos achados arqueológicos não estará pois perdida. Relativamente ao projecto arquitectónico de Alcino Soutinho, mesmo que pareça tarde demais discuti-lo, não o é de facto. Seria da máxima importância que gerasse uma reflexão pública, envolvendo especialistas e o público em geral. O Museu de Aveiro é de todos nós! Não devemos abster-nos de fruir desse espaço e de exigirmos o respeito pela Idade das suas pedras.

P.S.: O título deste artigo é também uma alusão ao site do Museu de Aveiro - http://www.eraumavezemaveiro.com/


Maria do Rosário Fardilha
DIÁRIO DE AVEIRO, 12 de Março de 2009



Ver ainda artigo de João Peixinho no DA de hoje.